Prospenomia

Prospenomia é o estudo da prosperidade e de seus geradores, com o objetivo de traçar caminhos para uma sociedade pós-escassez, conceito antecipado por Murray Bookchin em 1971, na qual avanços tecnológicos e reorganização social superam a carência material; propõe que, uma vez eliminada a escassez, a economia de mercado e toda a sua dinâmica percam sentido, exigindo que estejamos preparados para esse dia, por meio de uma abordagem que transcende os paradigmas convencionais da economia baseada em mercados, preços e acumulação, que mantém abundância relativa à custa de trabalho árduo, ineficiente e mal distribuído, gerando resíduos e caos ambiental; em contraste, defende a otimização inteligente dos sistemas sociais e ecológicos para alcançar prosperidade compartilhada, harmonia e sustentabilidade, apoiando-se tanto em exemplos históricos de decisões que promoveram prosperidade quanto nas visões de autores como Gene Roddenberry, que em Star Trek imaginou um futuro em que as pessoas trabalham para desenvolver talentos e ambições pessoais, e Buckminster Fuller, que entendia prosperidade como bem-estar e sustentabilidade para todas as formas de vida no planeta. BASIC ARGUMENT OF PROSPENOMICS/PROSENOMY by Luiz Pagano, Setembro de 2007

terça-feira, 6 de outubro de 2026

O Fim dos Partidos Políticos


Dizemos que alguém é de esquerda ou de direita quase como se estivéssemos descrevendo uma característica permanente da pessoa, algo semelhante à sua profissão, à sua nacionalidade ou ao seu temperamento. No entanto, com o avançar da sociedade, tal divisão faz menos sentido.

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Você que acompanha nossas ideias sabe que, numa dinâmica prospenômica da pós-escassez, o eixo político direita-esquerda deixa de ser o principal referencial decisório.

Vamos começar do começo...

As posições políticas possuem uma origem histórica bastante específica e relativamente recente. Elas nasceram em Paris, durante a Revolução Francesa, em um momento em que a França atravessava uma transformação tão profunda que as próprias estruturas políticas, sociais e econômicas do Antigo Regime estavam sendo desmontadas.

A distinção não nasceu de uma teoria política abstrata segundo a qual a humanidade estaria naturalmente dividida em dois grandes grupos. Ela nasceu de uma disposição física dos deputados dentro de uma sala.

Para compreender o que estava acontecendo, é necessário voltar no tempo à Paris de 1789. A França ainda era uma monarquia governada por Luís XVI, e a sociedade estava organizada segundo estruturas herdadas do Antigo Regime. A crise financeira da Coroa era profunda, agravada por décadas de guerras e pelo custo do apoio francês à independência americana. O Estado tinha dificuldades para arrecadar recursos, a tributação era desigual, os privilégios jurídicos dos diferentes estamentos produziam ressentimentos e a população sofria com o preço dos alimentos, especialmente do pão.

Ao mesmo tempo, as ideias do Iluminismo haviam produzido uma nova linguagem política. Montesquieu, Voltaire, Rousseau e outros pensadores haviam colocado em circulação conceitos como liberdade, soberania, representação, cidadania e organização racional do Estado.

A sociedade francesa estava, portanto, diante de uma combinação explosiva: crise fiscal, desigualdade institucional, dificuldades econômicas, novas ideias políticas e uma monarquia incapaz de reformar-se com facilidade. Quando Luís XVI convocou os Estados Gerais em 1789, não estava simplesmente convocando mais uma reunião administrativa. Estava abrindo uma porta para uma transformação que rapidamente escaparia ao controle da própria monarquia.

Paris era então uma cidade populosa, barulhenta e politicamente efervescente, na qual cafés, livrarias, tipografias, salões, clubes e espaços públicos funcionavam como verdadeiros meios de comunicação política.

A circulação das ideias não acontecia como hoje, através da televisão, das redes sociais ou dos grandes veículos digitais. A informação política era transmitida por jornais, panfletos, discursos, cartas, reuniões e, sobretudo, pela conversa. O café era uma espécie de rede social física. Era possível encontrar jornalistas, deputados, advogados, comerciantes, intelectuais, aristocratas e agitadores políticos discutindo os acontecimentos do dia, lendo jornais e distribuindo opiniões.

Um dos lugares mais célebres desse universo era o Café Procope, na Rive Gauche, próximo ao coração intelectual de Saint-Germain-des-Prés. Criado ainda no século XVII, o estabelecimento já havia sido frequentado por figuras do Iluminismo e, durante a Revolução, tornou-se associado ao ambiente revolucionário. O Café Procope recebeu a presença de personagens como Danton, Marat, Camille Desmoulins e Robespierre, e esteve ligado à sociabilidade dos Cordeliers e de outros revolucionários.

Ao contrário do que muita gente acredita, a esquerda, a direita e o Marais não podem ser transformados em uma simples receita divisória aplicada ao mapa de Paris. A esquerda revolucionária não ficava simplesmente na Rive Gauche, e a direita não ficava simplesmente na Rive Droite. O que existia era uma rede muito mais complexa de lugares de encontro.

A Esquerda Jacobina

Os Jacobins, por exemplo, estavam instalados no antigo convento dos Jacobins, na Rue Saint-Honoré. O clube dos Cordeliers, associado a Danton, Marat e Desmoulins, tinha sua sede no antigo convento dos Cordeliers, na Rive Gauche, e o Café Procope ficava próximo desse ambiente. Os Girondins também não constituíam simplesmente um "clube da Rive Gauche" oposto geograficamente aos Jacobins; eram uma corrente parlamentar e política cuja influência se desenvolveu sobretudo dentro da Assembleia, através de redes de sociabilidade política, imprensa e salões. A geografia ajuda a contar a história, mas não deve substituir a história. O verdadeiro mapa da Revolução era um mapa de pessoas, clubes, jornais, cafés, assembleias, ruas e relações de influência.

A Direita Girondina

Do outro lado desse universo revolucionário havia também espaços onde se concentravam monarquistas, constitucionalistas e setores mais conservadores. O Palais-Royal, na Rive Droite, era um dos grandes centros de circulação de pessoas e ideias de Paris. Ali funcionavam cafés, restaurantes, lojas, livrarias, casas de jogo e espaços de sociabilidade que faziam do local um dos pontos mais movimentados da capital. O Café de Foy, localizado no Palais-Royal, tornou-se particularmente associado ao ambiente monarquista e constitucionalista durante determinados momentos da Revolução.

Assim, é possível perceber como Paris possuía uma verdadeira geografia política. Determinados lugares concentravam determinados grupos, determinadas conversas e determinadas redes de influência. Mas essa geografia não correspondia exatamente à divisão parlamentar entre esquerda e direita. Ela era a infraestrutura social através da qual as posições políticas eram formadas, discutidas e levadas até o local onde seriam efetivamente transformadas em votos.

Esse local era particularmente importante: a Salle du Manège, junto ao Jardin des Tuileries. Construída originalmente como espaço para exercícios equestres, a enorme sala passou a abrigar a Assembleia a partir de novembro de 1789. Foi ali que funcionaram sucessivamente a Assemblée Constituante, a Assemblée Législative e, inicialmente, a Convention Nationale. Entre 1789 e 1793, aquele espaço tornou-se um dos grandes laboratórios da política moderna.

O Centro Marais

Foi dentro dessa sala que surgiu a famosa divisão espacial que daria origem à nossa linguagem política. Os deputados mais identificados com posições revolucionárias e republicanas tendiam a ocupar os assentos à esquerda do presidente da Assembleia; aqueles mais favoráveis à monarquia constitucional e a posições moderadas ou conservadoras ficavam à direita. Entre ambos encontrava-se o grupo conhecido como Marais ou Plaine.

E aqui aparece uma característica extraordinariamente moderna da Revolução Francesa: aqueles deputados não estavam apenas discutindo ideias; estavam criando um sistema operacional para transformar uma sociedade em ruptura em decisões coletivas. A Assembleia precisava votar sobre assuntos fundamentais: os poderes do rei, a estrutura do Estado, a Igreja, a propriedade, os direitos dos cidadãos, a guerra, as finanças e a própria natureza da soberania.

Nesse ambiente, os grandes agrupamentos ideológicos eram extremamente úteis. Se um deputado se identificava com determinado campo, isso fornecia aos demais uma indicação razoavelmente eficiente sobre suas prováveis posições em várias outras questões. Os grandes campos políticos funcionavam como pacotes de decisão. O eleitor e o deputado não precisavam reconstruir toda a teoria política a cada votação.

É precisamente por isso que não devemos olhar para aqueles pacotes ideológicos com superioridade histórica. Eles eram uma solução racional para um problema real. A informação era escassa, a sociedade era menos especializada, as comunicações eram lentas e a quantidade de questões técnicas que um cidadão precisava acompanhar era infinitamente menor do que aquela que existe hoje. A democracia precisava de algum mecanismo de compressão da informação, e os grandes campos políticos forneciam esse mecanismo.

É nesse ponto que o pensamento de Daniel Innerarity ajuda a ampliar o problema. Filósofo político espanhol e um dos principais estudiosos contemporâneos da governança democrática, Innerarity argumenta que os partidos modernos surgiram como grandes estruturas de agregação social. Eles reuniam identidades relativamente estáveis, profissões relativamente estáveis e interesses relativamente estáveis. O partido funcionava como um grande contêiner capaz de organizar uma enorme quantidade de pessoas dentro de uma mesma narrativa política.

O problema é que a sociedade mudou. Um cidadão contemporâneo pode defender responsabilidade fiscal e investimentos públicos em ciência. Pode apoiar a propriedade privada e considerar inaceitável que alguém passe fome. Pode ser conservador em determinadas questões culturais e liberal em outras. Pode defender livre mercado em alguns setores e forte intervenção pública em outros. Quanto mais complexa se torna a sociedade, maior é a probabilidade de que cada indivíduo concorde com algumas posições de um campo e rejeite outras do mesmo campo.

A pergunta "você é de esquerda ou de direita?" começa então a perder capacidade explicativa.

É justamente nesse ponto que a reflexão de Innerarity se encontra com a proposta da Prospenomics. Se os partidos nasceram como grandes contêineres para organizar identidades relativamente estáveis, o aumento da complexidade social reduz sua capacidade de representar adequadamente indivíduos cada vez mais diversos. Não significa que partidos desaparecerão amanhã. Significa que foram concebidos para um tipo específico de sociedade e talvez já não consigam representar com a mesma precisão o mundo que está emergindo.

A Prospenomics leva esse raciocínio um passo além. Ela propõe que uma sociedade de pós-escassez não precisa continuar organizando todas as suas decisões a partir de identidades ideológicas herdadas do século XVIII. O objetivo não é criar uma nova esquerda. Não é criar uma nova direita. Não é ocupar permanentemente o Marais. O objetivo é substituir a lógica do pertencimento pela lógica da realidade.

Grande parte da política moderna ainda opera como se toda questão precisasse ser previamente classificada como "de esquerda" ou "de direita". Mas a realidade não funciona dessa forma. Quando engenheiros projetam um Boeing 747, eles não perguntam se a posição das turbinas é uma solução de esquerda ou de direita. Eles não discutem se a espessura das asas é progressista ou conservadora. Eles não calculam a sustentação aerodinâmica com base em preferências ideológicas.

O local onde as turbinas são instaladas não depende do lado que ocupam na asa. Depende da necessidade de responder adequadamente às leis da física.

A distribuição de peso, a sustentação, o consumo de combustível e a estabilidade do voo não negociam com ideologias. O avião voa porque respeita a realidade.

A hipótese prospenômica é que uma parcela crescente das decisões públicas caminhará na mesma direção. Questões relacionadas à energia, alimentação, ciência, infraestrutura, automação, inteligência artificial e organização econômica possuem restrições objetivas que não desaparecem porque um grupo político prefere uma narrativa diferente. Assim como a física determina onde uma turbina deve estar, a realidade econômica, tecnológica e material impõe limites e possibilidades às decisões coletivas.

O critério central deixa de ser a origem ideológica de uma proposta e passa a ser sua capacidade de produzir resultados compatíveis com os recursos disponíveis, com o conhecimento acumulado e com a dignidade humana.

Por isso, talvez a pergunta do futuro não seja se a esquerda está certa ou se a direita está certa. Ambas foram respostas historicamente relevantes para os problemas de seu tempo. A pergunta realmente importante é outra: continuamos utilizando o melhor sistema possível para compreender a realidade atual?

Os deputados sentados à esquerda, à direita e no Marais da Salle du Manège criaram uma das tecnologias políticas mais bem-sucedidas da história. Durante mais de dois séculos ela ajudou a organizar conflitos, eleições, governos e ideologias. Mas nenhuma tecnologia intelectual é eterna.

Talvez a política do século XXI exija menos fidelidade aos lugares ocupados naquela sala parisiense e mais atenção às leis que governam a realidade. Afinal, quando chega o momento de construir um Boeing 747, não é a ideologia que decide onde ficam as turbinas.

É a física.

E uma sociedade madura talvez deva começar a tratar um número crescente de suas decisões exatamente da mesma forma.

Referências Bibliográficas

Doyle, William. The Oxford History of the French Revolution. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2018.

Furet, François. Pensando a Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

Hobsbawm, Eric. A Era das Revoluções: 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

Hunt, Lynn. Politics, Culture, and Class in the French Revolution. Berkeley: University of California Press, 2004.

Lefebvre, Georges. A Revolução Francesa. São Paulo: IBRASA, 1989.

McPhee, Peter. Liberty or Death: The French Revolution. New Haven: Yale University Press, 2016.

Palmer, R. R. The Twelve Who Ruled: The Year of the Terror in the French Revolution. Princeton: Princeton University Press, 2005.

Schama, Simon. Citizens: A Chronicle of the French Revolution. New York: Vintage Books, 1990.


Daniel Innerarity e Democracia Complexa

Innerarity, Daniel. La transformación de la política. Barcelona: Península, 2002.

Innerarity, Daniel. La democracia del conocimiento: por una sociedad inteligente. Barcelona: Paidós, 2011.

Innerarity, Daniel. Política para perplejos. Barcelona: Galaxia Gutenberg, 2018.

Innerarity, Daniel. Una teoría de la democracia compleja. Barcelona: Galaxia Gutenberg, 2020.

Innerarity, Daniel. "¿El final de los partidos?". Diversas edições e ensaios publicados em periódicos e coletâneas sobre democracia, representação e transformação dos sistemas partidários.


Instituições, Complexidade e Informação

Hayek, Friedrich A. The Use of Knowledge in Society. American Economic Review, v. 35, n. 4, 1945.

Simon, Herbert A. The Sciences of the Artificial. 3. ed. Cambridge: MIT Press, 1996.

North, Douglass C. Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

Scott, James C. Seeing Like a State. New Haven: Yale University Press, 1998.


Referência Histórica Utilizada na Analogia de Luca Pacioli

Pacioli, Luca. Summa de Arithmetica, Geometria, Proportioni et Proportionalità. Veneza, 1494.


Referência Conceitual da Prospenomics

Nunes, Marcelo. Prospenomics: Economia da Pós-Escassez, Abundância Tecnológica e Otimização Social. Manuscrito em desenvolvimento.


Bibliografia Essencial (versão curta para publicação)

Se o artigo for publicado em revista, site ou livro e você quiser apenas as referências realmente centrais, eu usaria:

  1. DOYLE, William. The Oxford History of the French Revolution.
  2. MCPHEE, Peter. Liberty or Death: The French Revolution.
  3. INNERARITY, Daniel. La democracia del conocimiento.
  4. INNERARITY, Daniel. Una teoría de la democracia compleja.
  5. NORTH, Douglass. Institutions, Institutional Change and Economic Performance.
  6. PACIOLI, Luca. Summa de Arithmetica, Geometria, Proportioni et Proportionalità.


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