Prospenomia

Prospenomia é o estudo da prosperidade e de seus geradores, com o objetivo de traçar caminhos para uma sociedade pós-escassez, conceito antecipado por Murray Bookchin em 1971, na qual avanços tecnológicos e reorganização social superam a carência material; propõe que, uma vez eliminada a escassez, a economia de mercado e toda a sua dinâmica percam sentido, exigindo que estejamos preparados para esse dia, por meio de uma abordagem que transcende os paradigmas convencionais da economia baseada em mercados, preços e acumulação, que mantém abundância relativa à custa de trabalho árduo, ineficiente e mal distribuído, gerando resíduos e caos ambiental; em contraste, defende a otimização inteligente dos sistemas sociais e ecológicos para alcançar prosperidade compartilhada, harmonia e sustentabilidade, apoiando-se tanto em exemplos históricos de decisões que promoveram prosperidade quanto nas visões de autores como Gene Roddenberry, que em Star Trek imaginou um futuro em que as pessoas trabalham para desenvolver talentos e ambições pessoais, e Buckminster Fuller, que entendia prosperidade como bem-estar e sustentabilidade para todas as formas de vida no planeta. BASIC ARGUMENT OF PROSPENOMICS/PROSENOMY by Luiz Pagano, Setembro de 2007

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Blemya e o ser humano pós-escassez


Como Seremos na Pós-Escassez?

Como imaginar o ser humano de uma sociedade que ainda não existe? 

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Essa é uma das dificuldades centrais quando falamos em pós-escassez. Podemos especular sobre inteligência artificial, automação, robótica, novas fontes de energia ou sistemas de produção capazes de reduzir drasticamente o custo de bens e serviços, mas tecnologia é apenas uma parte da equação. A pergunta mais difícil é outra: o que acontece com o ser humano quando a escassez deixa de organizar uma parcela importante de sua existência? Não se trata de imaginar um mundo no qual todos os recursos sejam literalmente infinitos. Escassez é um conceito relativo e pode mudar de natureza conforme tecnologia, produtividade e instituições se transformam. Uma sociedade pode superar determinadas formas de escassez e, simultaneamente, descobrir outras. Herbert Simon já observava que, em um ambiente rico em informação, a atenção se torna um recurso escasso. A abundância não elimina necessariamente a escassez; pode simplesmente deslocá-la. É justamente essa transição que me interessa.

Para ao menos podermos visualizar esse homem eu criei o Homo blemyus prospenus.

Grande parte da organização econômica e social que conhecemos foi construída em torno de um problema bastante simples: recursos são limitados e desejos são numerosos. Preços, mercados, propriedade, salários, crédito, investimento e competição são, entre outras coisas, mecanismos desenvolvidos para coordenar pessoas diante dessa condição. Mas tecnologias capazes de reduzir a necessidade de trabalho humano e o custo marginal de determinados bens podem alterar progressivamente essas relações. Isso não significa que a pós-escassez esteja chegando de maneira inevitável, nem que tecnologia elimine automaticamente desigualdade, concentração de poder ou incompetência. Significa apenas que uma sociedade na qual determinados bens e serviços possam ser produzidos em abundância exige novas perguntas. Se produzirmos cada vez mais com menos trabalho, o que faremos com o tempo liberado? Se a sobrevivência deixar de consumir a maior parte da energia humana, o que passará a dar sentido à vida? Se pudermos possuir quase tudo, o que continuará sendo realmente importante?



Essa questão já foi experimentada pela ficção científica. Gene Roddenberry percebeu que uma mudança tecnológica radical precisava também de uma mudança na imaginação social. Star Trek não apresentou apenas novas naves, teletransportadores e mundos alienígenas; apresentou uma sociedade que havia atravessado uma transformação econômica profunda. O replicador é talvez o exemplo mais evidente: quando comida, roupas e inúmeros objetos podem ser produzidos sob demanda a partir de matéria e energia, a relação entre trabalho, preço e objeto muda radicalmente. A tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta para produzir com mais eficiência aquilo que já produzimos e começa a questionar a própria necessidade de determinadas estruturas econômicas. Mas o mais interessante é que Roddenberry não precisou escrever um tratado sobre isso. Ele mostrou pessoas vivendo dentro daquela hipótese. Kirk não explorava o espaço para enriquecer, Spock não buscava conhecimento para aumentar seu patrimônio e Picard não comandava a Enterprise para acumular capital. Eles trabalhavam porque havia coisas a descobrir, problemas a resolver e conhecimento a produzir. A ficção permitiu observar o comportamento humano dentro de uma hipótese econômica.

É exatamente por isso que considero a Blemya uma espécie de ser pós-escassez. Ela nasceu antes da formulação atual da Prospenomics, mas hoje consigo enxergá-la como uma de suas expressões mais curiosas. A Blemya Media Group foi criada por mim em 2007 com a ideia de criar melhores condições de vida por meio de inteligência, criatividade e tecnologia, e a personagem acabou se tornando uma representação visual dessa busca. Blemya não tem cabeça. Seus olhos estão no peito e cérebro e coração estão simbolicamente reunidos no mesmo lugar. Ela não representa força física, poder ou capacidade de acumulação. Representa uma outra possibilidade: um ser que percebe de maneira diferente, no qual racionalidade e sensibilidade não precisam funcionar como forças opostas. Até sua relação simbólica com as tilândsias me interessa: uma criatura capaz de encontrar abundância naquilo que aparentemente é quase nada, assim como essas plantas conseguem retirar da atmosfera parte dos recursos necessários à sua existência. É uma metáfora para uma mudança de mentalidade, da economia da extração para uma economia da percepção.

Foi por isso que comecei a brincar com Blemya em forma de toy art. Não estou tentando transformar a personagem em uma linha de produtos. Ao contrário: não pretendo colocar esses toys à venda. Isso seria, inclusive, uma contradição interessante com a própria filosofia anticonsumerista da Blemya. O objetivo desses objetos é outro. Um toy pode funcionar como um artefato cultural, um marcador visual ou um pequeno instrumento de memória. Uma ideia abstrata pode ser muito mais facilmente reconhecida quando ganha uma forma. Um adulto pode explicar uma teoria durante uma hora; um objeto pode permanecer silenciosamente em uma estante durante anos. É essa capacidade que estou explorando. Os toys são uma maneira de brincar seriamente com a pergunta: como seria um ser humano que não tivesse sido moldado inteiramente pela necessidade de acumular, competir e transformar tudo em propriedade?

A toy art oferece uma linguagem particularmente adequada para esse experimento. No final dos anos 1990, Michael Lau ajudou a transformar o brinquedo em uma nova categoria cultural ao combinar a linguagem das action figures com a street culture e o colecionismo, especialmente a partir de seus Gardener, apresentados em Hong Kong em 1999. O brinquedo deixou de ser necessariamente apenas um produto industrial destinado à infância e passou também a funcionar como objeto artístico, personagem, identidade e expressão cultural. Essa transformação abriu espaço para que artistas utilizassem figuras tridimensionais para carregar conceitos complexos. É nesse sentido que estou utilizando a Blemya: não como uma personagem que precisa ser comercializada, mas como uma linguagem visual para testar hipóteses sobre o futuro. Cada toy modificado pode colocar a Blemya diante de uma referência cultural diferente e perguntar, por meio da imagem, como esse ser pós-escassez se comportaria naquele universo.

É também aqui que a relação com Star Trek se torna mais evidente. Roddenberry colocou pessoas diferentes na mesma ponte de comando e, sem fazer uma palestra sobre economia ou sociologia, apresentou uma sociedade na qual cooperação, ciência, exploração e conhecimento podiam ocupar o lugar que a sobrevivência e a acumulação ocupavam em nossa sociedade. Quero fazer algo semelhante em escala muito menor. Ao colocar Blemya em situações inspiradas por personagens, universos e arquétipos conhecidos da cultura popular, estou usando a linguagem que já aprendemos a reconhecer para fazer perguntas novas. A imagem de um pequeno toy pode funcionar como um experimento mental: e se Blemya fosse colocada naquele universo? O que ela faria? O que permaneceria igual? O que precisaria mudar? E, principalmente, o que isso nos diz sobre o ser humano que estamos tentando imaginar?

Não sabemos como será o ser humano pós-escassez. Talvez ele continue competitivo e acumulador. Talvez a escassez apenas migre para outros campos, como atenção, confiança, reconhecimento, tempo ou recursos ambientais. A pós-escassez não significa o fim dos problemas; pode significar uma mudança na natureza deles. Se a tecnologia permitir que produzamos quase tudo, talvez a dificuldade passe a ser decidir o que merece ser produzido. Se conhecimento se tornar abundante, talvez discernimento se torne mais valioso. Se máquinas fizerem uma parcela crescente do trabalho necessário, talvez propósito e significado se tornem questões centrais. Por isso, a Prospenomics não precisa apenas imaginar uma nova economia. Precisa também imaginar os indivíduos capazes de viver dentro dela.

É nesse ponto que Blemya deixa de ser apenas um monstrinho e passa a funcionar como arquétipo. Talvez o ser humano pós-escassez seja menos definido pelo que consegue acumular e mais pelo que consegue perceber, criar, conectar e compartilhar. Talvez inteligência não seja apenas capacidade de resolver problemas, mas capacidade de perceber possibilidades que antes não enxergávamos. Talvez prosperidade não seja simplesmente possuir mais, mas ter liberdade para dedicar energia àquilo que realmente importa. Não sei se o futuro produzirá seres humanos parecidos com Blemya — provavelmente não. Mas esse não é o objetivo. Blemya é uma pergunta materializada, um pequeno protótipo cultural de algo que ainda não sabemos descrever.


Por isso continuarei brincando com ela. Esses toys não são a resposta sobre como será o futuro; são ferramentas para imaginá-lo. A Blemya pode aparecer como cientista, exploradora, astronauta, artista ou qualquer outra coisa que permita testar uma ideia. O importante é que a brincadeira tenha uma função: deslocar nossa imaginação para fora das regras que consideramos naturais simplesmente porque fomos educados dentro delas. Talvez seja esse o papel mais interessante da arte quando pensamos em prosperidade: não prever o futuro, mas ampliar o espaço de futuros que conseguimos imaginar. A verdadeira questão da pós-escassez talvez não seja como produzir tudo. Talvez seja o que faremos conosco mesmos quando já não precisarmos gastar toda a vida tentando sobreviver. E talvez seja para isso que serve um pequeno toy: para deixar na estante uma pergunta que ainda é grande demais para responder.

Nota sobre as imagens e referências

As imagens publicadas neste artigo são exercícios independentes de arte conceitual e toy art criados a partir do universo autoral da Blemya. Algumas obras dialogam visualmente, de forma referencial, transformativa ou paródica, com personagens, universos e elementos reconhecíveis da cultura popular. Não são obras oficiais, licenciadas ou produzidas em associação com os respectivos titulares, nem pretendem sugerir patrocínio, endosso ou vínculo comercial. Personagens, nomes, marcas e demais elementos eventualmente reconhecíveis pertencem aos seus respectivos titulares. A Blemya e seus elementos originais permanecem como criações autorais independentes dentro deste experimento artístico e conceitual.

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