Prospenomia

Prospenomia (Prospenomics em inglês) é o estudo da prosperidade e seus geradores, a fim de traçar um caminho para a Pós-Escassez. Através de uma abordagem económica e social que transcende os paradigmas convencionais da teoria económica conhecida, que tem uma abundância relativamente baixa à custa de um trabalho árduo e ineficiente, e não consegue distribuir o bem-estar entre os homens, dando pouca ou nenhuma atenção aos resíduos e caos gerados no planeta. O campo de estudo da porspenomia, desenvolvido por Luiz Pagano, surge da necessidade urgente de repensar os modelos económicos e sociais atuais e para isso devemos estudar todas as formas conhecidas de prosperidade, desde decisões inteligentes tomadas na antiguidade, bem como as ficções de Gene Roddenberry de Star Trek, que vislumbra um futuro em em que a prosperidade é abundante, não se usa mais frações monetárias para a troca de bens e serviços, e as pessoas trabalham para satisfazer seus talentos e ambições de elevação pessoal; ou também a de Buckminster Fuller, em que a prosperidade não se limitava apenas à acumulação de riqueza material ou ao crescimento económico, mas era uma questão de garantir bem-estar e sustentabilidade para todas as formas de vida no planeta. BASIC ARGUMENT OF PROSPENOMICS/PROSENOMY by Luiz Pagano, Setembro de 2007

domingo, 25 de janeiro de 2026

Depois da mentira confortável - POV Prospenômico - React ao discurso de Mark Carney


Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, Mark Carney usou uma ideia simples, porém perturbadora, que realmente fez o mundo refletir.


Carney cita o ensaio “O poder dos sem-poder”, de Václav Havel, no qual o autor descreve uma sociedade que se mantém não pela força explícita, mas pela aceitação cotidiana de uma mentira compartilhada. A imagem central é a do pequeno comerciante que coloca um cartaz ideológico na vitrine não porque acredita nele, mas porque todos esperam que ele esteja ali; o gesto não expressa convicção, mas conformidade. Ao repetir esse ritual vazio, o indivíduo ajuda a sustentar um sistema inteiro baseado na aparência de consenso, mesmo quando esse consenso não existe mais. Para Havel, o verdadeiro poder do sistema não está na repressão direta, mas no fato de que as pessoas passam a viver “dentro da mentira”, ajustando seu comportamento para manter a ordem simbólica. Romper com isso — retirar o cartaz da vitrine — não é um ato grandioso, mas profundamente político, porque expõe a fragilidade do sistema e reintroduz a verdade na vida cotidiana. Viver na verdade, para Havel, não é apenas dizer o que se pensa, mas alinhar ação, discurso e realidade, desmontando a ficção que sustenta estruturas esgotadas.

O problema, segundo Carney, é que o mundo passou tempo demais vivendo sob esses painéis simbólicos — repetindo discursos que já não correspondiam à realidade. Para ele, o maior risco contemporâneo não é o caos, mas a insistência em viver na mentira.

Essa crítica não é apenas geopolítica ou institucional. Ela toca o próprio coração da economia moderna. Ao longo do século XX e início do XXI, diversas correntes econômicas surgiram justamente como reação ao esgotamento de uma economia clássica centrada quase exclusivamente em crescimento, lucro e acumulação. Essas correntes não negam necessariamente o mercado, mas tentam redefinir o que é valor e para que serve a economia. É nesse campo que a concepção de prospenomics dialoga com essas tradições, mas também se diferencia de forma clara.

O ponto de partida é reconhecer uma mentira fundamental que sustentou boa parte do pensamento econômico dominante: a ideia de que riqueza individual equivale a prosperidade coletiva. Riqueza pode existir para o indivíduo, para a empresa ou para um grupo restrito, sem que isso gere prosperidade real. Prosperidade, por definição, é um estado compartilhado. Ela só existe quando muitos prosperam ao mesmo tempo. O liberalismo clássico falha ao não criar mecanismos eficazes de distribuição da riqueza que gera. O socialismo, por sua vez, falha ainda mais ao não conseguir criar riqueza suficiente, de forma sustentável, para que ela possa ser distribuída. Ambos, cada um à sua maneira, acabam mantendo o painel na vitrine: a promessa de prosperidade que não se realiza plenamente.

A economia da dádiva, formulada a partir do ensaio clássico de Marcel Mauss em 1925, foi uma das primeiras a mostrar que a troca econômica não é apenas monetária. Mauss demonstrou que, em muitas sociedades, o valor circula por meio da obrigação de dar, receber e retribuir, envolvendo prestígio, honra, vínculo social e sentido simbólico. Karl Polanyi aprofundou essa percepção ao afirmar que a economia sempre esteve embutida nas relações sociais. O limite dessa abordagem é que ela costuma ser tratada como pré-moderna ou incompatível com sistemas complexos contemporâneos. A prospenomics parece partir da mesma intuição, mas atualizá-la para contextos urbanos, culturais e institucionais modernos, onde a troca simbólica continua existindo, embora disfarçada.

Já a economia do bem comum, sistematizada por Christian Felber a partir de 2010, propõe avaliar empresas e organizações por critérios sociais, ambientais e humanos, e não apenas pelo lucro. Trata-se de uma tentativa explícita de reorganizar o capitalismo por meio de métricas éticas alternativas ao PIB. Apesar de potente no plano normativo, essa abordagem tende a se tornar burocrática e tecnocrática. A prospenomics, em contraste, parece menos preocupada com métricas universais e mais com a geração concreta de prosperidade vivida, percebida e compartilhada no cotidiano.

A economia donut, proposta por Kate Raworth, trouxe uma imagem poderosa ao estabelecer um piso social mínimo e um teto ecológico máximo para a atividade econômica. Ela desloca o debate da obsessão pelo crescimento infinito para a busca de equilíbrio sistêmico. No entanto, atua principalmente no plano macroeconômico e das políticas públicas, dedicando pouca atenção à dimensão simbólica, cultural e subjetiva da prosperidade. A prospenomics, ao contrário, parece interessada justamente em como as pessoas sentem, narram e ritualizam o prosperar, não apenas em como ele é medido.

A economia regenerativa, influenciada por pensadores como John Fullerton, amplia a crítica à lógica extrativa e linear, propondo sistemas econômicos que funcionem como ecossistemas vivos, capazes de se regenerar ao longo do tempo. Ainda assim, permanece fortemente ancorada na dimensão ambiental e produtiva. A prospenomics parece ampliar essa noção de regeneração para o campo cultural, simbólico e social, tratando também da regeneração de sentido, pertencimento e reconhecimento.

Mais recentemente, a economia do propósito ganhou força, defendendo que empresas e indivíduos prosperam mais quando operam a partir de um propósito claro. Embora relevante, essa corrente frequentemente é absorvida pelo marketing e pelo discurso corporativo, tornando-se mais narrativa do que estrutura real de circulação de valor. A prospenomics, por sua vez, não trata o propósito como slogan, mas como elemento estrutural da própria economia.

É nesse ponto que a prospenomics se diferencia de todas essas correntes. Enquanto muitas tentam corrigir excessos do sistema econômico existente, ela parece propor algo mais radical: abandonar o painel na vitrine e redefinir o próprio significado de prosperar. Em vez de tratar prosperidade como acúmulo, eficiência ou crescimento, ela a entende como circulação qualificada de valor, onde dinheiro, cultura, reconhecimento, experiência, ritual e legado coexistem.

Volta-se, assim, ao alerta de Mark Carney. O mundo não pode mais seguir vivendo na mentira confortável de que crescimento econômico isolado produz prosperidade automática. Prosperidade não é uma promessa abstrata nem um discurso de manutenção da ordem. Ela é um estado coletivo construído ao longo do tempo, percebido pelas pessoas e vivido nas relações. Retirar o painel da vitrine é reconhecer que riqueza individual não basta — e que uma economia só merece esse nome quando cria condições reais para que muitos prosperem juntos.

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