Durante mais de dois séculos, praticamente toda a teoria econômica e toda a disputa política moderna foram construídas sobre uma mesma premissa: os recursos são escassos. A esquerda e a direita discordam sobre inúmeras questões, mas compartilham esse ponto de partida. A esquerda tradicionalmente se preocupa com a distribuição dos recursos escassos. A direita tradicionalmente se preocupa com sua produção e alocação eficiente. Os debates mudam, os governos mudam, os partidos mudam, mas a pergunta central permanece a mesma: como administrar a falta?
Essa visão foi formalizada de maneira brilhante por Lionel Robbins em 1932. Em An Essay on the Nature and Significance of Economic Science, Robbins definiu a economia como a ciência que estuda o comportamento humano diante de meios escassos que possuem usos alternativos. Essa definição ajudou a organizar toda a ciência econômica do século XX. Se os recursos são limitados e os desejos humanos são ilimitados, então a função da economia é decidir como utilizar aquilo que não existe em quantidade suficiente para atender a todos simultaneamente.
Mas existe um paradoxo escondido nessa definição. Se a economia existe porque há escassez, o que acontece quando a tecnologia começa a reduzir essa escassez? O que acontece quando determinados bens podem ser produzidos em volumes cada vez maiores com custos cada vez menores? O que acontece quando a falta deixa de ser a principal restrição?
Essa pergunta parecia quase filosófica em 1932. Hoje ela se tornou prática.
A internet foi a primeira demonstração concreta desse fenômeno. Durante milhares de anos, informação era algo caro de reproduzir. Livros precisavam ser impressos, transportados e armazenados. Música exigia discos. Filmes exigiam películas e distribuição física. Hoje, um arquivo digital pode ser copiado bilhões de vezes com custo praticamente nulo. O primeiro exemplar continua exigindo tempo, trabalho e investimento. A segunda cópia custa quase nada. A milionésima custa praticamente o mesmo. Pela primeira vez na história humana, uma parte relevante da economia começou a escapar da lógica clássica da escassez.
Décadas antes da internet transformar o mundo, um pensador percebeu que algo semelhante poderia acontecer com a própria organização da sociedade. Em 1971, Murray Bookchin publicou Post-Scarcity Anarchism. É fácil se prender à palavra "anarquismo" no título, mas isso faz muita gente perder a ideia mais importante do livro. Bookchin argumentava que a humanidade estava se aproximando de um ponto histórico em que a abundância material deixava de ser uma impossibilidade técnica. Pela primeira vez, os avanços tecnológicos permitiam imaginar um sistema social capaz de atender as necessidades básicas de todos sem exigir níveis extremos de trabalho humano.
Bookchin era herdeiro de uma longa tradição anarquista. Antes dele, Pierre-Joseph Proudhon questionou as estruturas de propriedade que concentravam riqueza e poder. Mikhail Bakunin criticou as hierarquias políticas e defendeu formas descentralizadas de organização social. Piotr Kropotkin procurou demonstrar que a cooperação e a ajuda mútua eram forças fundamentais da evolução humana. Bookchin absorveu parte desse legado, mas acrescentou um elemento decisivo: a tecnologia.
Sua pergunta não era apenas como distribuir poder. Sua pergunta era o que acontece com as relações de poder quando a escassez deixa de ser dominante. Se uma sociedade consegue produzir abundância material com muito menos esforço do que no passado, faz sentido continuar reproduzindo instituições desenhadas para um mundo de falta permanente?
Essa é uma pergunta importante para a Prospenomics. Mas a Prospenomics não é simplesmente uma atualização do anarquismo de Bookchin.
Da mesma forma, também não é libertarianismo, nem minarquismo.
O libertarianismo moderno foi profundamente influenciado por pensadores como Ludwig von Mises, Friedrich Hayek e Murray Rothbard. O minarquismo ganhou uma de suas formulações mais conhecidas com Robert Nozick. Todos eles compartilham uma preocupação legítima com a concentração de poder e normalmente defendem soluções baseadas em mercados livres, descentralização e autonomia individual.
Em vários aspectos, essas correntes se aproximam da Prospenomics. A inovação tecnológica, a descentralização de decisões, a experimentação institucional e a liberdade para empreender frequentemente contribuem para gerar abundância. Porém existe uma diferença fundamental.
O anarquista tende a olhar para o conflito entre autoridade e liberdade.
O libertário tende a olhar para o conflito entre Estado e indivíduo.
O socialista tende a olhar para o conflito entre capital e trabalho.
O conservador tende a olhar para o equilíbrio entre ordem e mudança.
Todos eles continuam operando dentro de tradições políticas construídas para responder à mesma pergunta fundamental: quem deve administrar a escassez?
A Prospenomics começa em outro lugar.
Ela não pergunta primeiro quem deve controlar os recursos. Ela pergunta como tornar os recursos mais abundantes.
Ela não pergunta primeiro como dividir o bolo. Ela pergunta como multiplicar o bolo.
Ela não pergunta primeiro qual ideologia deve governar a sociedade. Ela pergunta quais mecanismos aumentam a disponibilidade de energia, alimento, informação, saúde, infraestrutura, conhecimento e tempo livre.
Por isso, a Prospenomics não é uma tentativa de ficar "acima" da esquerda e da direita. Também não é uma tentativa de conciliar todas as ideologias. O que ela propõe é uma mudança de eixo analítico. O debate entre esquerda e direita continua existindo, mas deixa de ocupar o centro da análise. A variável principal já não é quem administra a escassez. A variável principal passa a ser como expandimos a abundância.
Essa mudança de perspectiva fica mais clara quando entendemos o conceito de custo marginal, popularizado por Jeremy Rifkin em The Zero Marginal Cost Society.
Imagine uma pequena padaria.
Para abrir as portas pela manhã, o proprietário já teve de pagar uma série de custos fixos. O aluguel do espaço, os equipamentos, a manutenção, o salário do padeiro, a limpeza e o aquecimento inicial do forno. Suponha que tudo isso represente R$ 400 por dia.
Agora imagine que a padaria produza 100 pães.
Para produzir esses 100 pães, ela precisará consumir farinha, água, fermento e gás. Suponha que esses insumos somem R$ 180. Ao final da produção dos primeiros 100 pães, o custo total do dia será de R$ 580.
Mas o que acontece se a padaria decidir produzir um pão adicional?
O aluguel não aumenta.
O forno já está quente.
O padeiro já está trabalhando.
A estrutura já existe.
Para produzir o pão número 101, será necessário apenas consumir uma pequena quantidade adicional de farinha, água, fermento e energia. Digamos que isso represente R$ 1,50 em insumos e R$ 0,30 em energia, totalizando R$ 1,80.
Esse valor é o custo marginal do pão número 101.
Agora suponha que cada pão seja vendido por R$ 7,00.
Nesse caso, produzir o pão adicional faz sentido. Ele custa R$ 1,80 para ser produzido e gera R$ 7,00 de receita. A diferença de R$ 5,20 ajuda a cobrir os custos fixos e posteriormente se transforma em lucro. É exatamente por isso que empresas desejam produzir mais: depois que a estrutura está montada, cada unidade adicional tende a ser mais vantajosa economicamente.
Compare isso com um PDF contendo a receita do pão.
O primeiro PDF pode ter custado R$ 5.000 entre pesquisa, testes, redação, fotografias e design. Mas a cópia número 101 não exige mais farinha, mais gás nem mais fermento. Basta apertar um botão e copiar o arquivo. Seu custo marginal é praticamente zero.
Foi essa lógica que Rifkin identificou como uma das grandes forças transformadoras do século XXI.
Mas existe um erro muito comum. Muitas pessoas confundem abundância digital com pós-escassez.
Ter acesso gratuito a dez mil receitas de pão não elimina a necessidade de produzir pão.
Ter acesso gratuito a um vídeo não elimina a necessidade de energia.
Ter acesso gratuito a conhecimento médico não elimina a necessidade de hospitais.
A abundância digital é real. Mas ela não resolve automaticamente a escassez física.
A verdadeira questão do nosso século é outra: até que ponto o mundo físico pode começar a se comportar como o mundo digital?
Imagine agora uma padaria do futuro. Seu forno é alimentado por energia solar praticamente gratuita durante décadas. Sistemas inteligentes controlam o processo produtivo. Grande parte do trabalho repetitivo foi automatizada. Os ingredientes são produzidos localmente em sistemas agrícolas altamente eficientes. Cadeias de reciclagem e reaproveitamento reduzem desperdícios.
O pão nunca terá custo marginal literalmente zero. O mundo físico não é o mundo digital. Sempre existirão limitações materiais, manutenção e desgaste de equipamentos.
Mas suponha que o custo marginal do pão número 101 deixe de ser R$ 1,80 e passe a ser R$ 0,20.
Ou R$ 0,05.
Nesse momento, o problema econômico começa a mudar de natureza.
Já não estamos discutindo apenas como repartir recursos insuficientes. Estamos discutindo como organizar uma sociedade em que as necessidades básicas podem ser atendidas com volumes cada vez menores de trabalho, energia e custo.
É nesse ponto que nasce a Prospenomics.
Robbins nos ensinou a compreender a economia da escassez.
Proudhon, Bakunin e Kropotkin imaginaram formas de organização além das estruturas tradicionais de poder.
Bookchin percebeu que a abundância poderia se tornar tecnicamente possível.
Mises, Hayek, Rothbard e Nozick mostraram como descentralização e liberdade podem ampliar a capacidade produtiva.
Rifkin explicou os mecanismos econômicos que empurram determinados custos marginais em direção a zero.
A Prospenomics não substitui nenhuma dessas tradições. Ela aprende com todas elas.
Mas faz uma pergunta diferente.
O socialismo pergunta quem deve possuir o forno.
O libertarianismo pergunta quem deve ser livre para operar o forno.
O anarquismo pergunta por que o forno deveria estar submetido a uma autoridade central.
A Prospenomics pergunta:
Como fazemos com que o pão produzido pelo forno se torne tão abundante que a escassez deixe de ser o centro da discussão?
Porque, quando a escassez deixa de ser a variável dominante, a pergunta econômica mais importante já não é quem ficará com a última fatia do pão.
A pergunta passa a ser como garantir que haja pão suficiente para todos.
Referências
BOOKCHIN, Murray. Post-Scarcity Anarchism. Oakland: AK Press, 2004. (Obra originalmente publicada em 1971).
HAYEK, Friedrich A. The Road to Serfdom. Chicago: The University of Chicago Press, 1944.
KROPOTKIN, Piotr. Mutual Aid: A Factor of Evolution. New York: McClure, Phillips & Co., 1902.
MISES, Ludwig von. Human Action: A Treatise on Economics. New Haven: Yale University Press, 1949.
NOZICK, Robert. Anarchy, State, and Utopia. New York: Basic Books, 1974.
PROUDHON, Pierre-Joseph. What Is Property? An Inquiry into the Principle of Right and of Government. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. (Obra originalmente publicada em 1840).
RIFKIN, Jeremy. The Zero Marginal Cost Society: The Internet of Things, the Collaborative Commons, and the Eclipse of Capitalism. New York: Palgrave Macmillan, 2014.
ROBBINS, Lionel. An Essay on the Nature and Significance of Economic Science. London: Macmillan, 1932.
ROTHBARD, Murray N. For a New Liberty: The Libertarian Manifesto. New York: Macmillan, 1973.
.
Leituras Complementares
SMIL, Vaclav. Energy and Civilization: A History. Cambridge: MIT Press, 2017.
KURZWEIL, Ray. The Singularity Is Near. New York: Viking, 2005.
DIAMANDIS, Peter H.; KOTLER, Steven. Abundance: The Future Is Better Than You Think. New York: Free Press, 2012.
OSTROM, Elinor. Governing the Commons. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
Essas obras ajudam a conectar energia, tecnologia, abundância, governança descentralizada e mudanças civilizacionais, temas que aparecem naturalmente dentro da estrutura conceitual da Prospenomics.
Nenhum comentário:
Postar um comentário