Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, Mark Carney usou uma ideia simples, porém perturbadora, que realmente fez o mundo refletir.
Carney cita o ensaio “O poder dos sem-poder”, de Václav Havel, no qual o autor descreve uma sociedade que se mantém não pela força explícita, mas pela aceitação cotidiana de uma mentira compartilhada. A imagem central é a do pequeno comerciante que coloca um cartaz ideológico na vitrine não porque acredita nele, mas porque todos esperam que ele esteja ali; o gesto não expressa convicção, mas conformidade. Ao repetir esse ritual vazio, o indivíduo ajuda a sustentar um sistema inteiro baseado na aparência de consenso, mesmo quando esse consenso não existe mais. Para Havel, o verdadeiro poder do sistema não está na repressão direta, mas no fato de que as pessoas passam a viver “dentro da mentira”, ajustando seu comportamento para manter a ordem simbólica. Romper com isso — retirar o cartaz da vitrine — não é um ato grandioso, mas profundamente político, porque expõe a fragilidade do sistema e reintroduz a verdade na vida cotidiana. Viver na verdade, para Havel, não é apenas dizer o que se pensa, mas alinhar ação, discurso e realidade, desmontando a ficção que sustenta estruturas esgotadas.
O problema, segundo Carney, é que o mundo passou tempo demais vivendo sob esses painéis simbólicos — repetindo discursos que já não correspondiam à realidade. Para ele, o maior risco contemporâneo não é o caos, mas a insistência em viver na mentira.
Essa crítica não é apenas geopolítica ou institucional. Ela toca o próprio coração da economia moderna. Ao longo do século XX e início do XXI, diversas correntes econômicas surgiram justamente como reação ao esgotamento de uma economia clássica centrada quase exclusivamente em crescimento, lucro e acumulação. Essas correntes não negam necessariamente o mercado, mas tentam redefinir o que é valor e para que serve a economia. É nesse campo que a concepção de prospenomics dialoga com essas tradições, mas também se diferencia de forma clara.
O ponto de partida é reconhecer uma mentira fundamental que sustentou boa parte do pensamento econômico dominante: a ideia de que riqueza individual equivale a prosperidade coletiva. Riqueza pode existir para o indivíduo, para a empresa ou para um grupo restrito, sem que isso gere prosperidade real. Prosperidade, por definição, é um estado compartilhado. Ela só existe quando muitos prosperam ao mesmo tempo. O liberalismo clássico falha ao não criar mecanismos eficazes de distribuição da riqueza que gera. O socialismo, por sua vez, falha ainda mais ao não conseguir criar riqueza suficiente, de forma sustentável, para que ela possa ser distribuída. Ambos, cada um à sua maneira, acabam mantendo o painel na vitrine: a promessa de prosperidade que não se realiza plenamente.
A economia da dádiva, formulada a partir do ensaio clássico de Marcel Mauss em 1925, foi uma das primeiras a mostrar que a troca econômica não é apenas monetária. Mauss demonstrou que, em muitas sociedades, o valor circula por meio da obrigação de dar, receber e retribuir, envolvendo prestígio, honra, vínculo social e sentido simbólico. Karl Polanyi aprofundou essa percepção ao afirmar que a economia sempre esteve embutida nas relações sociais. O limite dessa abordagem é que ela costuma ser tratada como pré-moderna ou incompatível com sistemas complexos contemporâneos. A prospenomics parece partir da mesma intuição, mas atualizá-la para contextos urbanos, culturais e institucionais modernos, onde a troca simbólica continua existindo, embora disfarçada.
Já a economia do bem comum, sistematizada por Christian Felber a partir de 2010, propõe avaliar empresas e organizações por critérios sociais, ambientais e humanos, e não apenas pelo lucro. Trata-se de uma tentativa explícita de reorganizar o capitalismo por meio de métricas éticas alternativas ao PIB. Apesar de potente no plano normativo, essa abordagem tende a se tornar burocrática e tecnocrática. A prospenomics, em contraste, parece menos preocupada com métricas universais e mais com a geração concreta de prosperidade vivida, percebida e compartilhada no cotidiano.
A economia donut, proposta por Kate Raworth, trouxe uma imagem poderosa ao estabelecer um piso social mínimo e um teto ecológico máximo para a atividade econômica. Ela desloca o debate da obsessão pelo crescimento infinito para a busca de equilíbrio sistêmico. No entanto, atua principalmente no plano macroeconômico e das políticas públicas, dedicando pouca atenção à dimensão simbólica, cultural e subjetiva da prosperidade. A prospenomics, ao contrário, parece interessada justamente em como as pessoas sentem, narram e ritualizam o prosperar, não apenas em como ele é medido.
A economia regenerativa, influenciada por pensadores como John Fullerton, amplia a crítica à lógica extrativa e linear, propondo sistemas econômicos que funcionem como ecossistemas vivos, capazes de se regenerar ao longo do tempo. Ainda assim, permanece fortemente ancorada na dimensão ambiental e produtiva. A prospenomics parece ampliar essa noção de regeneração para o campo cultural, simbólico e social, tratando também da regeneração de sentido, pertencimento e reconhecimento.
Mais recentemente, a economia do propósito ganhou força, defendendo que empresas e indivíduos prosperam mais quando operam a partir de um propósito claro. Embora relevante, essa corrente frequentemente é absorvida pelo marketing e pelo discurso corporativo, tornando-se mais narrativa do que estrutura real de circulação de valor. A prospenomics, por sua vez, não trata o propósito como slogan, mas como elemento estrutural da própria economia.
É nesse ponto que a prospenomics se diferencia de todas essas correntes. Enquanto muitas tentam corrigir excessos do sistema econômico existente, ela parece propor algo mais radical: abandonar o painel na vitrine e redefinir o próprio significado de prosperar. Em vez de tratar prosperidade como acúmulo, eficiência ou crescimento, ela a entende como circulação qualificada de valor, onde dinheiro, cultura, reconhecimento, experiência, ritual e legado coexistem.
Volta-se, assim, ao alerta de Mark Carney. O mundo não pode mais seguir vivendo na mentira confortável de que crescimento econômico isolado produz prosperidade automática. Prosperidade não é uma promessa abstrata nem um discurso de manutenção da ordem. Ela é um estado coletivo construído ao longo do tempo, percebido pelas pessoas e vivido nas relações. Retirar o painel da vitrine é reconhecer que riqueza individual não basta — e que uma economia só merece esse nome quando cria condições reais para que muitos prosperem juntos.